segunda-feira, novembro 13, 2006

Estudar a História

«Muitos alunos questionam-me a propósito da função da História e sobre a razão da sua obrigação em aprender a História.
Para eles, a História, mais não é, que os factos e as personalidades do passado, e questionam-se, com alguma razão, e com alguma legitimidade, sobre o interesse que tem e terá para eles, coisas que já passaram, que já morreram.
Ora, a História, o conhecimento histórico, é o signo mais evidente da relacionamento social do Homem. Enquanto existência para si, enquanto solipsismo existencialista, o homem não precisa da História, porque só o presente, o momento conta, a auto-satisfação o sustenta. O Homem mais não é que impulso existencial, absoluto presente, sem passado e futuro. Nada conta, a não ser o presente. O tempo é mero conjuntura negativa que lhe nega a eternidade, e por isso, ele o repulsa para os limbos da nossa “vida” como que a tapar com a “peneira”, a terrível realidade que nos espera, o término da nossa existência na terra, a morte, a morte como elemento chave e absolutamente integrante do viver.
O gosto pelo conhecimento histórico reflecte sociedades que de si saiem em busca de si, na alteridade, no busca do encontro com o outro, com a irredutibilidade interpelante do outro, trilhando nesse caminho a descoberta de si mesmas. Não deixa de ser, talvez sintomático, que a História derive da palavra grega, que substancia a busca, História é a expressão da inquirição, do questionamento, de procura interrogativa sobre a vida, sobre o Homem. Foi a busca do porquê do presente, o impulso que levou Heródoto a iniciar a sua interrogação sobre o passado. Não seria por acaso que Heidegger viu na matriz, na origem, uma das chaves do conhecimento do presente, ir à fonte, era uma das chaves, senão a chave, para a compreensão do universo hodierno.
Por isso, não há melhor saber, não há saber mais bem preparado do que aquele que a História transmite, para dar uma visão global e amplamente abrangente do sentido da humanidade, do sentido profundamente humano da humanidade.
De facto, a História lida com o Homem, o Homem na sua plenitude. Contrariamente a outras ciências sociais que de uma ou outra forma lidam com aspectos parcelares da existência humana, a economia, a sociedade (sociologia), o espaço na geografia, a História confronta-se com a totalidade do Homem. O que ela busca é o Homem, o homem pleno, em todas as suas configurações e em toda a sua nudez.
É por isso que não há melhor disciplina para falar do Homem do que a História. É por isso, que a História tem no seu método transdisciplinar a sua maior fraqueza e a sua maior força, fraqueza porque a História, de certo modo, parasita os diversos métodos das ciências sociais, força, porque esse parasitismo deriva da sua busca, não focando o Homem de uma dado modo, mas a totalidade, a totalidade do Homem.
É absurdo por isso pensar que para leccionar a disciplina de História basta saber uns quantos factos e umas quantos datas do passado. Que a História mais não é que uns quantos acontecimentos e a sua descrição de forma mais ou menos erudita. Posto desta forma, a História não passa de uma inutilidade de sabichão. Não! Leccionar História é procurar, bem ou mal, introduzir as pessoas no âmago do universo humano, é inseri-las no sentido da humanidade, e isso só pode ser feito por quem tomou consciência da totalidade existencial, da totalidade humana, que releva do conhecimento histórico.
O historiador, como o professor de História tem de ser um evocador, um contador de Histórias e um evocador. A evocação é a forma mais subtil e complexa de compreensão, porque o que evoca, de certo modo, traz consigo e sente-se parte integrante do Mundo que está a recriar.
Seria pois, extremamente negativo que qualquer especialização rápida numa área da História servisse para leccionar a disciplina no Ensino Básico e Secundário.»

António Paulo Duarte
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Parte deste texto foi publicado no jornal Notícias da Manhã, nº 475, de 10 de Novembro de 2006, p. 16 com o título, “Em Prol da Educação Histórica”.

2 comentários:

VM disse...

gostaria que professores de outras áreas - ciências exacrtas - também defendessem a sua causa

al cardoso disse...

Para mim que adoro historia e historias, a vantagem dela e com ela aprender-mos a nao cometer sensivelmente os mesmos erros.

Que bem faria aos politicos, uma leitura atenta da historia das suas nacoes e ate mundial.

Saudacoes monarquicas.