domingo, janeiro 21, 2007

Agostinho da Silva



Os verdadeiros pensadores do século XX - criadores de verdades e destruidores de mitos - dificilmente encontram eco numa época como a nossa, por duas ordens de razões. Em primeiro lugar porque, embora a nossa época já não acredite em ideologias - uma vez que a ciência desmistificou os respectivos fundamentos unilaterais - continua a viver e pensar segundo categorias ideológicas e sem um pensamento matricial capaz de acolher contributos dispersos por metodologias diversas. Em segundo lugar, predomina entre as diversas correntes filosóficas um apartheid teórico a ponto de os respectivos vocabulários serem mutuamente inaceitáveis, o que dificulta a renovação da filosofia. A situação é a de os filósofos estarem divididos entre si pela paz da ignorância mútua e pelo que imaginam ser o (seu) universo.

Homenagear Agostinho da Silva - como sucedeu no recente Congresso de Novembro de 2006 em Lisboa e Porto - é combater este apartheid entre filosofias e entre filosofias e outros saberes. Ele foi o português que vai para o Brasil que é “Portugal à solta” e que regressa ao solo físico da pátria de onde nunca saiu espiritualmente. É o leigo que faz figura de profeta espiritual, sempre peregrino por uma verdade maior. Mais não acrescento que uma sua conhecida e deliciosa auto-definição: «Claro que sou cristão; e outra coisas, por exemplo budista, o que é, para tantos, ser ateísta; ou, outro exemplo, pagão. O que, tudo junto, dá português, na sua plena forma brasileira». E para ele o que se passa À volta ? “Portugal, o grande, o todo, o de amarelos, brancos, pretos e vermelhos, o de islamitas, cristãos, judeus, animistas, budistas, taoistas, o da América, Europa, Ásia, África, Oceânia, o dos municípios, tribos e aldeias, o de monarquias e repúblicas, o dos grandes espaços conhecidos e o dos espaços ignotos ainda, dentro e fora do homem, o Portugal núcleo de formação de uma União Internacional dos Povos para o desenvolvimento, a liberdade e a paz [...]” – Educação de Portugal [1970].



[1] Pensamento à Solta

1 comentário:

Leonardo de Melo Gonçalves disse...

Agostinho da Silva, um dos maiores génios que melhor representa aquilo que é Ser Português, é um tesouro ainda indescoberto por muita gente.

Leia-se Agostinho!, é o que recomendo. Poucos ou nenhum expressaram tão bem em palavras, as qualidades e características de um povo, que tantos menosprezam e não compreendem.