terça-feira, maio 29, 2007

Maçonaria, república e poder governativo, por D. Antóno Marcelino, Bispo Emérito de Aveiro,

António Reis, Grão Mestre do auto designado Grande Oriente Lusitano
Vivemos em regime democrático. Há quem se diga democrata e a quem a democracia incomode. Assim se cai na tentação da promiscuidade, que envenena o ambiente e o espaço que é de todos. Se, no regime em que vivemos, se devem respeitar as opções, ninguém está impedido de falar livremente, sem medo, perante o que se vai vendo, conhecendo, e que pretende influenciar a comunidade de que todos fazemos parte.
A democracia não é um fim, nem pode servir de meio para que o poder, qualquer que ele seja, se aproveite dos postos de comando para empobrecer e dominar um povo livre.
A maçonaria viveu em Portugal, desde que chegou em princípios do século XVIII, horas difíceis. Foram perseguições de fora e divisões de dentro. Tempo seguido com contradições e projectos, uns conseguidos, outros frustrados. O apoio que então deu à “Carbonária”, motor organizado da queda da Monarquia, e a identificação conseguida, com a jovem República, inspirando ou fazendo seus os ditos “valores republicanos”, deram-lhe impulso para dominar. Isto permitiu-lhe conduzir o processo do início do novo sistema, minando os órgãos fundamentais da soberania, desde a Presidência da República ao Parlamento, destruindo o que não dominava e conquistando uma presença efectiva, bem marcada e visível, nos mais diversos lugares de influência do Estado. Teve, depois, de entrar de novo em meia clandestinidade. Este facto, porém, não a impediu de fazer acordos secretos com o poder, para que, dada a sua influência, o mesmo se pudesse manter, mesmo quando publicamente perseguia a Loja. E foi assim, como se sabe e se diz, até nos tempos de Salazar, que, olhando para o lado, cedeu na orientação de serviços públicos conhecidos e cobiçados, dada a influência destes no povo.
A aceitação oficial da Loja deu-se com o 25 de Abril, por razões óbvias, depressa explicadas por motivo de quem ia aparecendo na ribalta política dominante. O novo poder fez-lhe a entrega de bens antes expropriados e pagou-lhe indemnizações. Às claras, recomeçou-se, então, a falar da maçonaria e a dizer da campanha persistente que ela fazia nos corredores da Assembleia da República, junto de gente nova ansiosa por benesses no presente e sonhando com as boas promessas de futuro. Abriram-se portas, antes e sempre fechadas, publicaram-se nomes de alguns aderentes, não todos, com influência nos diversos quadrantes da sociedade portuguesa; manteve-se, porém, o sigilo dos ritos de iniciação e de outros ritos importantes. Aliviou-se algum secretismo, mas a Loja continuou a ser uma associação fechada, sem a abertura normal, propiciada por regime democrático. Esta situação deu direito a desconfiar do que se passa e programa.
O sol da primavera é propício para trazer à luz o que as tocas escondem em invernos prolongados. Porque o ambiente político se tornou propício e a ocasião convidativa, a maçonaria começou a apresentar os seus projectos para o país. A nós o dever e o direito de apreciar, dizer e alertar sobre o que se projecta, porque a todos nos diz respeito.
A maçonaria portuguesa aparece, de novo, com algum espírito de “carbonária”, eivada de um acirrado laicismo, tendo no horizonte os “valores republicanos”, lidos unilateralmente, e empenhando-se por introduzi-los como inspiradores das leis que devem reger o povo. Esquece-se que o poder democrático não se pode exercer à revelia dos valores que um povo concreto e sensato sempre teve, quer ter e defende, para salvaguarda da sua identidade, dignidade e futuro em liberdade. Impor é matar e destruir.
Há que fechar a Igreja na sacristia, ignorar os valores cristãos, fazer tábua rasa de uma cultura milenária, negar a história pátria e secar as suas raízes vitais, mudar o sentido das instituições que dão consistência à sociedade, fechar o homem, por via da educação nas escolas e meios de comunicação social, à dimensão do transcendente. Será este o programa “político” actualizado do Partido Socialista, agora publicamente de mãos dadas com a maçonaria? Se a perspectiva é de um laicismo redutor, o que restará da democracia? Um povo decapitado. E que será o Partido Socialista? Uma galeria vistosa, com muita gente alienada e encostada. E a maçonaria? A estratégia táctica de servir e de se servir de um poder sem ideologia.
Mas as prioridades num país que empobrece têm de ser outras, se quisermos sobreviver.
* Bispo Emérito de Aveiro
(Correio do Vouga, 24 de Maio de 2007)

11 comentários:

Laurus nobilis disse...

Só por curiosidade, será que faz sentido que se faça uma cerimónia maçónica em plena Basílica da Estrela, como aconteceu ainda não há muito tempo, tanto quanto sei com o acordo das autoridades eclesiásticas? Não será que a própria Igreja se fechou ela própria na tal sacristia, em prol de qualquer coisa que nos ultrapassa?

Lord of Erewhon disse...

Enfim... tipos de avental e tipos de saiote! Dispenso ambos!

P. S. A pergunta deste amigo aqui em cima... é tão cândida! :)

mch disse...

O problema da cerimónica maçónica na Basilica da Estrela é que foi realizada à má fé, dado que a autorização foi dada sem ser para esse fim específico.
A Igreja como hierarquia e organização, acho eu, está sempre sujeita a fechar..se na sacristia. As pessoas da Igreja, cada cristão está sempre pronto a ajudar o próximo

Anónimo disse...

É sempre difícil falar-se do que se desconhece, mesmo que se o tente fazer de forma inteligente.
Para que se saiba:
- Quando se afirmam eventuais acordos entre a Maçonaria e o regime de Salazar, seria bom concretizar e dizer quais em concreto. Assim ficaríamos todos mais esclarecidos.
- Não existe nenhuma incompatibilidade entre a Maçonaria e qualquer religião que seja, incluindo a católica. Importa saber porque o Vaticano combate a Maçonaria, e é muito simples. A Maçonaria defende a Liberdade, a Igualdade e a Fraternidade e contraria a imposição de dogmas. Assim, qualquer um deve ter a liberdade de escolher a sua religião ser ser por isso, descriminado por outros.
- A Maçonaria defende a laicidade dos Governos, como forma de tratar todos por igual, independentemente do credo, não necessariamente o ateísmo.
A Maçonaria acolhe igualmente pessoas de todos os credos, partidos, republicanos e monárquicos, ricos e pobres, conquanto sejam pessoas de bons costumes e virtuosos.
Esta é a realidade, mesmo que incómoda para muitos.

RG (Maçon)

Anónimo disse...

A cerimónia na Basílica da Estrela, reflectiu um desejo do homenageado ante os seus irmãos.
Uma pompa fúnebre constitui-se por um direito de quem faz a homenagem ante as convicções do homenageado e neste caso não fere em nada o local onde foi realizado.
Acaso já reparou que a própria Basílica da Estrela tem em si, símbolos maçónicos ? E sabe porquê ? Repare sobre a porta de acesso e procure saber. Curioso que clérigos, incluindo Papa tenham sido e são maçons.

RG (maçon)

Rui @t Blog disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Rui @t Blog disse...

A Maçonaria ainda é pouco conhecida em Portugal e devia divulgar mais os seus princípios.

Anónimo disse...

O RG (maçon) tem toda a razão. Existiram reis de Portugal maçons e imensos clérigos. Por outro lado acredito que a maçonaria promove o compadrio e se comporta como uma casta, no pior dos sentidos. Não duvido que a nossa sociedade seria muito mais justa e democrática se não existissem este tipo de agremiações que se intitulam filantrópicas mas que estão sobretudo voltadas para a promoção e defesa dos seus membros.

Augustus disse...

Que acordos houve com salazar e os maçons?
Para já as grandes figuras do estado novo eram maçonicas. Caso do Presidente Carmona, do Alm.Sarmento Rodrigues, do Albino dos Reis,do Pereira Rosa etc Também foi no EN que se construiram as estatuas do maçon José de Almeida, do Marquês de Pombal etc.

Anónimo disse...

Peço desculpa por voltar a postar aqui comentário mas entendo dever fazê-lo, o que denota também que por aqui passo.

Esclarecendo:
- Salazar seus mais próximos foram perseguidores acérrimos da Maçonaria. Contudo, maçons decerto houve que lhe foram próximos. Como se sabe, a Maçonaria não descrimina ninguém pelo seu credo ou opção política nem social, conquanto sejam virtuosos.
- De facto, em como todas as organizações, existem maçons que não o deveriam ser, e muitos são afastados por isso mesmo. Mas não generalizemos. Alerto também que muitas figuras são apontadas com maçons, ou sem o serem de facto, ou sem o serem na prática nem reconhecidas como tal.
- De facto a 1ª república estava repleta de maçons e numa altura em que a Maçonaria se estava a consolidar em Portugal e o conhecimento sobre a mesma não era o maior. Muitas das figuras da época ainda hoje são mal entendidas como maçons.
- A Maçonaria não defende nem promove o "compadrio" acredite, e as notícias que têm sido veiuladas na imprensa estão cheias de erros e misturando obediências maçónicas, o que é lamentável e tem um propósito bem claro.
- Concordo em peno, mesmo enquanto maçon, em recusar reconhecer fraternidade nalgumas figuras públicas apontadas como maçons, que o assumem seguramente num interesse muito particular. Pena é que as notícias enganem (informem-se sobre as obediências e as lojas - GOL, GLRP, GLLP, ... porquê têm diferenças entre elas e algumas muito importantes).

Cumprimentos ao dono do blog e demais que aqui vêm e perdoem-me o abuso.

RG (Maçon)

Rui Vilela disse...

Maçonaria não põe em causa a religião e até acredita nela como é o caso da Maçonaria Regular que acredita no "Grande Arquitecto".
O Grande Oriente Lusitano não representa a Maçonaria Regular porque os seus membros não acreditam em Deus. Mas também a nível internacional são uma pequena minoria, a grande maoria acredita no "Grande Arquitecto"=Deus.